Julho é o mês dedicado à conscientização sobre o câncer de cabeça e pescoço. E existe um dado que ajuda a explicar por que essa campanha é tão importante
Segundo dados apresentados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), 76,3% dos casos de câncer de boca no Brasil ainda são diagnosticados nos estágios III ou IV da doença, fases consideradas avançadas. No Julho Verde 2026, mês de conscientização sobre o câncer de cabeça e pescoço fica o alerta: por que ainda chegamos tão tarde ao diagnóstico?
O número chama atenção porque revela um desafio que vai além do tratamento. O problema não está apenas na
existência da doença, mas no fato de que muitos pacientes chegam ao diagnóstico quando ela já está mais desenvolvida.
Entre 2026 e 2028, o INCA estima mais de 17 mil novos casos de câncer de boca por ano no país. Somente no Espírito Santo, são esperados 510 novos diagnósticos em 2026.
O termo câncer de cabeça e pescoço engloba um grupo de tumores que podem surgir em diferentes estruturas da região, como cavidade oral, língua, gengivas, lábios, garganta, faringe, laringe e outras áreas relacionadas à respiração, alimentação e comunicação.
Embora sejam doenças diferentes entre si, elas compartilham fatores de risco, formas de diagnóstico e desafios semelhantes quando identificadas em fases avançadas.
Por isso, o Julho Verde busca ampliar o conhecimento da população sobre essas doenças e reforçar a importância do diagnóstico precoce.
Quando se fala em diagnóstico tardio, muitas pessoas imaginam que o principal motivo seja a falta de conhecimento sobre a doença. A realidade é mais complexa.
Em muitos casos, os pacientes já ouviram falar sobre câncer de cabeça e pescoço. O que acontece é que dificilmente associam determinados sinais e alterações ao risco de uma doença mais séria.
Além disso, existe um comportamento bastante comum: a tendência de esperar que os sintomas desapareçam sozinhos.
A rotina é corrida, o trabalho exige atenção e existem outras prioridades. E assim, alterações que inicialmente pareciam pequenas acabam sendo deixadas para depois.
Existe outro fator importante que ajuda a explicar o atraso no diagnóstico: a adaptação.
O ser humano tem uma enorme capacidade de se acostumar a mudanças graduais. Quando uma alteração aparece de forma lenta e progressiva, ela pode ser incorporada à rotina sem que a pessoa perceba sua relevância.
É comum que alguém passe a falar menos por causa de uma mudança na voz, adapte sua alimentação por dificuldade para engolir ou simplesmente conviva com um desconforto por meses acreditando que aquilo faz parte da vida.
O problema é que a adaptação não resolve a causa da alteração. Ela apenas torna o sintoma menos perceptível.
Nem sempre a demora acontece por desinformação. Em alguns casos, ela acontece por medo de fazer exames, de descobrir um problema e de precisar passar por um tratamento.
Embora esse sentimento seja compreensível, adiar a investigação não altera a existência de uma doença. Apenas reduz o tempo disponível para compreendê-la e tratá-la adequadamente quando necessário.
Investigar não significa esperar o pior, mas buscar respostas.
Durante muitos anos, os tumores de cabeça e pescoço foram fortemente associados ao tabagismo e ao consumo excessivo de álcool. Essa associação continua sendo verdadeira e extremamente relevante.
No entanto, ela acabou criando uma percepção equivocada em parte da população: a de que apenas pessoas com esse perfil estão expostas ao risco.
Nos últimos anos, especialistas observaram um aumento dos tumores de orofaringe relacionados ao HPV, especialmente em regiões como as amígdalas e a base da língua.
Essa mudança contribuiu para transformar parte do perfil dos pacientes diagnosticados atualmente e ampliou a importância da conscientização sobre prevenção, vacinação e acompanhamento de saúde.
Isso não significa que o HPV levará ao câncer na maioria dos casos. Pelo contrário. A maior parte das infecções é eliminada naturalmente pelo organismo. Mas mostra que o câncer de cabeça e pescoço não pode ser compreendido apenas pelos fatores de risco clássicos.
Quando falamos sobre diagnóstico precoce, é comum focarmos apenas na possibilidade de tratamento. Mas existe outro aspecto importante.
A região da cabeça e do pescoço abriga estruturas fundamentais para atividades que fazem parte da nossa identidade: falar, respirar, engolir, se alimentar, se comunicar e expressar emoções. Por isso, o impacto dessas doenças frequentemente ultrapassa a dimensão física.
Mudanças na voz, dificuldades relacionadas à alimentação, alterações na aparência e adaptações na rotina podem influenciar a qualidade de vida e o convívio social dos pacientes.
É justamente por essa razão que o tratamento costuma envolver uma equipe multidisciplinar, com profissionais de diferentes áreas atuando em conjunto.
Nenhum médico pode afirmar que o diagnóstico precoce garante cura. Cada paciente possui características próprias e cada doença apresenta comportamentos diferentes.
Mas existe algo que a medicina conhece muito bem: identificar uma alteração mais cedo costuma ampliar as possibilidades de tratamento e permitir decisões mais rápidas e mais seguras.
Por isso, o objetivo do Julho Verde não é gerar medo, mas estimular atenção aos sinais do corpo, às mudanças persistentes e à importância de procurar respostas quando algo deixa de parecer normal.
Porque, em muitos casos, o melhor momento para investigar uma alteração é antes que ela comece a interferir na sua vida.